10 novembro, 2006

cronópios e famas

Entrar na intimidade de alguém pela leitura de sua correspondência é uma tentação para qualquer ser humano; há um voyeur em cada um de nós. E quando ela pertence a um escritor que admiramos, o voyerismo torna-se gozo – como acontece agora com a de Julio Cortázar, um dos inovadores da literatura latino-americana do século.

Leiam esta pequena história, mas antes uma pequena informação sobre os personagens.
Os cronópios representam a fantasia e a alegria de viver, livremente; as famas, o apego à rotina, às regras e convenções sociais; as esperanças, a passividade diante da vida.

HISTÓRIA
Um cronópio pequenininho procurava a chave da porta da rua na mesa-de-cabeceira, a mesa-de-cabeceira no quarto de dormir, o quarto de dormir na casa, a casa na rua. Por aqui parava o cronópio, pois para sair à rua precisava da chave da porta.

e + esta

CONDOR E CRONÓPIO
Um condor cai como um raio em cima de um cronópio que está passeando por Tinogasta, encurrala-o contra uma parede de granito e lhe diz com grande petulância o seguinte:
Condor —Atreva-se a afirmar que eu não sou bonito.
Cronópio — O senhor é o pássaro mais bonito que eu já vi.
Condor — Mais ainda.
Cronópio — O senhor é mais belo do que a ave-do-paraíso.
Condor — Atreva-se a dizer que eu não vôo alto.
Cronópio — O senhor voa a alturas vertiginosas e é inteiramente supersônico e estratosférico.
Condor — Atreva-se dizer que eu cheiro mal.
Cronópio — O senhor cheira melhor do que um litro inteiro de água-de-colônia Jean-Marie Farina.
Condor — Sujeito de merda. Não me deixa nem uma chance para eu lhe dar uma bicada.

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